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As tempestades da vida

Ao conduzir sozinho, por força da pandemia do COVID 19, a bênção “Urbi et Orbi” (bênção à cidade de Roma e ao mundo), no dia 27 de março de 2020, o Papa Francisco disse em sua homilia: “Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo dum silêncio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem: pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares. Revemo-nos temerosos e perdidos.”


Mais de um ano depois da constatação do Papa, a pandemia prossegue e a humanidade ainda está em perigo. No Brasil são quase meio milhão de vidas perdidas. E muitos cristãos se perguntam se Deus não estaria dormindo e se esta tempestade é castigo?


O texto bíblico que pode nos inspirar na busca dessa resposta é o da tempestade acalmada (cf. Marcos 4,35-41). Numa barca, junto com os discípulos, antes de dormir, Jesus disse para onde queria ir: “Vamos para o outro lado do mar”, ou seja, atravessar o mar de Galileia, ir à terra dos pagãos, para continuar a sua missão de “pregar o Reino de Deus”. O evangelista conhecedor das dificuldades que sofre a comunidade dos anos 70 d.C., apresenta uma viagem com tormenta: “Começou a soprar um vento muito forte, e as ondas se lançavam dentro da barca, de modo que a barca já estava se enchendo de água”. 


A barca que leva Jesus e seus discípulos é uma imagem da Igreja missionária de todos os tempos. Também a Igreja deve sentir-se envolvida pela mesma paixão e zelo missionário de Jesus, indo ao encontro dos homens e mulheres para lhes comunicar a boa notícia do Reino de Deus. No entanto, o que parece fácil torna-se muito difícil. Esta barca, em consequência das adversidades do tempo, está quase afundando. A boa notícia é que Jesus está na barca da Igreja e pode ordenar que as tempestades se acalmem.


É importante identificar as causas que ameaçam o ardor missionário da Igreja. Talvez “ondas” de desânimo, de desesperança: somos cada vez menos na comunidade; o nosso trabalho parece inútil? “Ondas” de fundamentalismo e a auto-referencialidade: é importante cuidar a pureza de nossos ritos, dos Sacramentos e das liturgias... somos Igreja dentro do templo. “Ondas” de aburguesamento e cumplicidade: já fizemos bastante, pobres sempre existiram e existirão... Diz o Papa Francisco, na referida homilia: “A tempestade desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades”.


A pergunta fundamental do Evangelho de Marcos é: Quem é Jesus? Encontrar a resposta certa para esta pergunta é essencial para resolver o problema da tempestade. Jesus é a Palavra e a Pessoa certa para iluminar as perguntas sem respostas, que se apresentam em forma de tempestade. Conhecer Jesus, desenvolver um processo de aprofundamento em seu mistério e ministério, ouvir a sua Palavra, olhar e contemplar a sua ação é a mais segura forma para acalmarmos a tempestade que assola a Igreja e o mundo.


 
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