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Se conhecesses o dom de Deus...

O Evangelho do terceiro domingo da Quaresma nos apresenta o diálogo de Jesus com a samaritana (cf. Jo 4, 5-42). O encontro aconteceu quando Jesus atravessava a Samaria, região entre a Judeia e a Galileia, habitada por pessoas que os judeus desprezavam, considerando-a cismática e herege. Enquanto os discípulos vão à aldeia procurar comida, Jesus permanece junto de um poço e pede de beber a uma mulher que ali tinha ido buscar água. 


Podemos perceber uma linha de conflito entre judeus e samaritanos. Mesmo assim, Jesus pede água e inicia um diálogo. “Como é que tu, sendo judeu, te dignas pedir alguma coisa a uma samaritana?” Jesus responde: “Se soubesses quem sou, e o dom que tenho para ti, tu é que pediria e eu te daria ‘água viva’, uma água que sacia qualquer sede e se torna fonte inesgotável no coração de quem a bebe” (vv. 10-14). Jesus não esbarra no conflito, mas vai além e aponta para a vida plena.


A Campanha da Fraternidade 2020 aponta para muitos conflitos, em nosso Brasil, que minimizam a vida e clamam por Jesus. Um destes é o conflito da água, que “vêm crescendo desde 2002, com um aumento de 40,1%. Ribeirinhos e pescadores foram as vítimas preferenciais: 80,5%. Metade desses conflitos foram causados por mineradoras. Em 2017, foram 71 pessoas assassinadas, sendo 31 em cinco massacres. Nessa onda de violência, as lideranças do campo, que lutam pela terra e em defesa dos territórios dos povos originários e comunidades tradicionais, estão sendo massacradas. No ano de 2018, 73,5% dos casos de conflito de terra e água em todo o Brasil envolveram as populações tradicionais” (CF 2020, n. 47). 


Um projeto de sociedade e de desenvolvimento sem Deus, normalmente conduz ao “individualismo que marca de tal maneira as relações, que a vida corre o risco de ser vista não mais como Dom e Compromisso, mas como um peso ou como algo de que a pessoa possa dispor a seu bel prazer. Assistimos, então, a uma cada vez mais crescente mercantilização da vida, em que o ser humano passa a ser avaliado pelo que produz e pelo que consome. Dessa forma, relativizam-se ou, simplesmente, ignoram-se os direitos humanos, abrindo brecha para o perverso caminho da intolerância política, religiosa e cultural, raiz de fundamentalismos, de preconceitos e de discriminações. Por trás de cada ato de preconceito e discriminação, há muita dor e sofrimento diante dos quais não podemos permanecer indiferentes (CF 2020, n. 52).”


Por essa razão que Deus nos dá este tempo de Quaresma, a fim de educar nosso desejo para o sentido sagrado e eterno da vida. E olhando para nosso modelo maior, que é Jesus, nós nos damos conta do quanto ainda estamos longe do Espírito do Senhor, o quanto nós e nossa sociedade ainda nos deixamos guiar mais pela violência do que pelo diálogo… Que o Senhor acolha a confissão da nossa fraqueza e que sejamos confortados por sua misericórdia.


Dom José Mário Angonese
Bispo de Uruguaiana

 
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